terça-feira, 11 de março de 2008

Assassinatos natalinos - parte 11(by Felipe)

A maioria das pessoas - a imensa e esmagadora maioria, para usar os termos corretos - usava máscaras para disfarçar seu verdadeiro eu. Átila não era afeito a isso, mas tal característica fazia parte da condição humana. Com ele, as coisas não eram diferentes. Era um homem do tipo durão, alguém cuja masculinidade fazia lembrar os atores machões de Hollywood - John Wayne, Charles Bronson, Clint Eastwood, dentre outros. Mas tinha sua parcela sensível de alma. Átila pensava que ser pai deveria ser uma dádiva. Já havia conhecido essa dádiva, e isso fora-lhe tirado de maneira cruel. Chegava a ser irônico o fato de se relacionar com uma garota chamada Jasmine, pois esse era o nome de sua filha. Jasmim devia estar com dezoito anos.

Entremeou os dedos da mão esquerda nos cabelos da nuca da ruiva, aconchegando-a junto de si. A música folk de McKennitt ainda preenchia o ambiente com calma e suavidade. A garota tornaria a tomar a pílula. Havia sido silente quanto à decisão de interromper o uso do medicamento não por negligência, mas por concordar com a idéia de terem um filho. Não aconteceu. Mas não era tarde demais para tentar.

- Eu acho que você não devia voltar a tomar, meu anjo.

A voz saiu gutural, baixa, vibrando a caixa torácica do homem quando murmurou aquelas palavras.

- Acho que devíamos continuar tentando. Podemos procurar um médico e ver o que está acontecendo.

Segurou-a pelos braços e puxou-a mais para cima, de modo que pudesse encaixar a cabeça de Jasmine sob seu queixo. As pontas dos dedos vagavam de sua nuca às omoplatas em carícias suaves e lânguidas.

- Se houver algum problema, pode ser comigo. Afinal, já estou velhaco. - riu ele, de modo suave, como se quisesse quebrar a seriedade do assunto. - Mas eu acho que não devia voltar a tomar. Quero ter um filho com você.

O murmúrio foi fraco, mas carregava em si uma convicção sólida. Estava seguro do que queria. Átila já havia passado dos quarenta anos, estava em uma idade onde o excesso de ponderações e considerações só trazia prejuízo. As confusões da juventude, as vacilações, a inconseqüência, tudo isso havia sido deixado para trás. Sabia que seria um excelente pai. Sabia que Jasmine seria uma mãe dedicada. Sabia que ambos eram maduros e seguros o suficiente para conduzir aquela relação a mais profundos níveis de compromisso.

- O que acha?

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