quinta-feira, 13 de março de 2008

Assassinatos natalinos - parte 12(by Jô)

Jasmine ficou calada enquanto Átila falava. Ouvia-o vagamente, tentando voltar a atenção totalmente para as palavras do companheiro, mas não conseguia. Sentia-se meio dormente, como se estivesse hipnotizada pelo mau pressentimento que teimava em lhe martelar na mente. Só saiu um pouco daquele estado de distração ao perceber que o brasileiro lhe fizera uma pergunta. Levou algum tempo para que sua mente alcançasse o sentido da questão, e mais alguns segundos para formar uma resposta.

- Está bem, Átila. Eu acho que nós podemos tentar mais um...

Sua sentença foi interrompida pelo toque estridente do telefone. Com um leve suspiro de cansaço, Jasmine se levantou da cama, de má vontade, e foi até a sala. Quem estaria telefonando àquela hora? Só havia duas opções - alguém com uma emergência ou sem o menor senso comum. Apanhou o aparelho sem fio e voltou para o quarto, ficando perto do armário enquanto atendia.

- Dave? - David era seu irmão mais velho, quase vinte anos mais velho que Jasmine, a última de cinco filhos - Por Deus, fale devagar, não consigo entendê-lo! - Fez uma pausa, evidentemente ouvindo a pessoa do outro lado da linha - Danny? O que aconteceu com ele? Fale mais devagar, por favor... - Danny era seu sobrinho favorito, talvez por ser o primeiro. O rapaz de dezesseis anos se relacionava melhor com a tia que com o pai, e adorava passar os fins de semana com Jasmine e Átila, fazendo mil perguntas a respeito do trabalho na polícia - Oh, meu Deus... - Murmurou a ruiva, o rosto perdendo até o menor traço de cor. Apesar de parecer prestes a desmaiar, conseguiu se manter de pé e continuar a falar - Onde vocês estão? Sim, eu sei onde é. Estou indo. Não sei, verei. Se ele não for, vou sozinha, mas vou.

Depois de desligar o telefone, Jasmine atravessou o espaço que a separava da cama e se sentou na mesma, pousando o aparelho no criado mudo. Respirou fundo algumas vezes, para recobrar a calma, antes de falar.

- Danny foi... agredido durante um assalto. Dave disse que os ferimentos a faca foram bastante sérios. - Mordeu o lábio inferior, fazendo os melhores esforços para não chorar. Conseguiu, mas os olhos verdes brilhavam como duas jóias, devido às lágrimas contidas - Eles estão aqui perto, no Queens' Hospital. Você vem comigo...? - já terminou a questão de pé perto do guarda-roupas, fechando o botão de uma calça jeans escolhida ao acaso e enfiando os pés em um par de tênis pretos de corrida, enquanto prendia a camisa dele, que não se preocupara em trocar, dentro das calças.

terça-feira, 11 de março de 2008

Assassinatos natalinos - parte 11(by Felipe)

A maioria das pessoas - a imensa e esmagadora maioria, para usar os termos corretos - usava máscaras para disfarçar seu verdadeiro eu. Átila não era afeito a isso, mas tal característica fazia parte da condição humana. Com ele, as coisas não eram diferentes. Era um homem do tipo durão, alguém cuja masculinidade fazia lembrar os atores machões de Hollywood - John Wayne, Charles Bronson, Clint Eastwood, dentre outros. Mas tinha sua parcela sensível de alma. Átila pensava que ser pai deveria ser uma dádiva. Já havia conhecido essa dádiva, e isso fora-lhe tirado de maneira cruel. Chegava a ser irônico o fato de se relacionar com uma garota chamada Jasmine, pois esse era o nome de sua filha. Jasmim devia estar com dezoito anos.

Entremeou os dedos da mão esquerda nos cabelos da nuca da ruiva, aconchegando-a junto de si. A música folk de McKennitt ainda preenchia o ambiente com calma e suavidade. A garota tornaria a tomar a pílula. Havia sido silente quanto à decisão de interromper o uso do medicamento não por negligência, mas por concordar com a idéia de terem um filho. Não aconteceu. Mas não era tarde demais para tentar.

- Eu acho que você não devia voltar a tomar, meu anjo.

A voz saiu gutural, baixa, vibrando a caixa torácica do homem quando murmurou aquelas palavras.

- Acho que devíamos continuar tentando. Podemos procurar um médico e ver o que está acontecendo.

Segurou-a pelos braços e puxou-a mais para cima, de modo que pudesse encaixar a cabeça de Jasmine sob seu queixo. As pontas dos dedos vagavam de sua nuca às omoplatas em carícias suaves e lânguidas.

- Se houver algum problema, pode ser comigo. Afinal, já estou velhaco. - riu ele, de modo suave, como se quisesse quebrar a seriedade do assunto. - Mas eu acho que não devia voltar a tomar. Quero ter um filho com você.

O murmúrio foi fraco, mas carregava em si uma convicção sólida. Estava seguro do que queria. Átila já havia passado dos quarenta anos, estava em uma idade onde o excesso de ponderações e considerações só trazia prejuízo. As confusões da juventude, as vacilações, a inconseqüência, tudo isso havia sido deixado para trás. Sabia que seria um excelente pai. Sabia que Jasmine seria uma mãe dedicada. Sabia que ambos eram maduros e seguros o suficiente para conduzir aquela relação a mais profundos níveis de compromisso.

- O que acha?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte 10(by Jô)

Local: Um pequeno prédio a poucas ruas da delegacia.

Ele era moreno. Moreno, bonito e delicado. Não havia rapaz mais gentil na vizinhança.

Ele trabalhava muito, durante o dia, no mercadinho da vizinhança. Limpava os pisos, arrumava as prateleiras, descarregava os produtos que chegavam em uma pick-up... Fazia o que lhe mandavam, quando lhe mandavam. E nunca se queixava.

Com os vizinhos do pequeno e modesto prédio onde vivia, não era muito diferente. Ele ia buscar o gatinho da vizinha idosa em cima da árvore. Ia desentupir a pia da mãe solteira que vivia no andar de cima. Ia recolocar os azulejos caídos no banheiro do vizinho que sofria do coração. Fazia o que lhe pediam, quando lhe pediam. E nunca se queixava.

Se lhe agradeciam, ele parecia envergonhado. Sorria timidamente e se curvava. A resposta, assim como a atitude, não variava.

- Eu é que devia agradecer por poder ajudar.

Sim, ele era simpático. Simpático demais.

Assassinatos natalinos - parte 9(by Jô)

Jasmine passaria alguns minutos sob o chuveiro, permitindo que Átila banhasse seu corpo, que parecia tão pequeno e frágil se comparado ao dele. Quando ele terminasse, faria o mesmo, interrompendo os toques apenas para pousar leves beijos nos ombros ou no pescoço do companheiro.
Sabia que não iria além daquilo, não naquela noite. Sabia também que Átila compreenderia. Era visível o cansaço que sentia. Visível na expressão vaga e perdida nos olhos verdes. Visível nas leves sombras que já marcavam a região sob os olhos da irlandesa. Facilmente perceptível na crescente tendência de Jasmine a se retrair e se afastar. Não de maneira física, mas emocionalmente.
Saiu do chuveiro pouco depois de Átila e esperou que ele saísse do banheiro. Mesmo já estando seca, ainda dedicou um tempo mais longo que o necessário ao processo de enxugar os cabelos. Deixou a toalha esticada para secar e passou ao quarto, seguindo para o armário. Abriu primeiramente sua parte e apanhou uma calcinha branca, vestindo-a distraidamente. Em seguida, abriu a gaveta de camisas de Átila e escolheu uma ao acaso, vestindo a peça com lentidão deliberada. Costumava vestir alguma peça dele quando precisava de conforto e da sensação de segurança que o próprio companheiro lhe proporcionava. Era como se a personalidade dele estivesse impregnada no perfume suave que se evolava de suas roupas.
A ruiva voltou ao seu próprio lado do guarda-roupas e se mirou no espelho preso a uma das portas por um longo momento. Em seguida, fechou o armário e se dirigiu à cama, no mesmo silêncio que mantinha desde o banho.
Só depois de estar deitada de seu lado da cama, com Átila deitado próximo, foi que encarou os olhos do brasileiro. Apoiou o peso em um cotovelo, usando a outra mão para acariciar o rosto e o peito do homem. Quando finalmente falou, a frase saiu lenta, como se não tivesse muita certeza de suas palavras.
- Estou pensando em voltar a tomar a pílula - murmurou, olhando os olhos dele como se esperasse ver algo ali. Sabia, e muito bem, que a idéia de interromper o uso do medicamento quando haviam resolvido morar juntos não fora dele, mas sua. Ainda tinha dúvidas sobre o que Átila pensava a respeito. Teria concordado apenas por saber que aquela era uma necessidade dela? Ou também desejaria um filho? Com um som parecido a um gemido de desânimo e confusão, Jasmine deixou que o apoio do cotovelo lhe faltasse e deitou a cabeça no peito de Átila, acariciando-o no pescoço com as pontas dos dedos. Tentava não pensar nas crianças assassinadas, mas a cada vez que fechava os olhos, os retratos passavam por sua mente como uma macabra apresentação de slides. Ainda assim, manteve os olhos fechados, apenas esperando que ele dissesse algo, ou não dissesse nada.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte oito(by Felipe)

O braço esquerdo do brasileiro, do cotovelo ao ombro, era tomado por uma imensa tatuagem tribal que continha, em seu interior, contornada e evidente, uma pequena bandeira do Brasil. Não pretendia morar mais na terra pátria, mas era inegável que sentia saudades de lá. Era uma relação dicotômica e complexa a que tinha com relação a seu país de origem. Orgulhava-se de ser o que era hoje, de ter o sangue mestiço, de vir de uma terra onde a diversidade era a maior riqueza, mas não orgulhava-se daquilo em que o país estava sendo transformado.

Deixou aquelas digressões de lado quando Jasmine, sob o chuveiro do banheiro assim como ele, abraçou-o. O corpo da garota parecia frágil, facilmente quebrável, quando estava nos braços do grandalhão musculoso. A água escorria por entre os corpos de forma lânguida, e foi com aquela mesma languidez que o brasileiro beijou os lábios da ruiva. Suas mãos percorreram as costas da garota, e sentia que as dela também passeavam por seu corpo. O beijo, entretanto, foi breve, ainda que carregasse um desejo inconfesso de que durasse por toda uma noite.

Átila deu banho em Jasmine. Suas mãos grandes ensaboaram o corpo da garota sem ajuda de bucha, espalhando o sabonete líquido por todos os volteios e recantos do corpo dela antes que a enxaguasse. Depois, deixou que retribuísse a ele a gentileza. A delicadeza dos gestos da policial eram como confissões de um carinho inconteste, de um sentimento que, doce e amplo, crescia a cada dia com os laços do cotidiano. E foi durante esses momentos de ternura que permitiu à sua mente alguns instantes de divagação e lembrança das horas que precederam sua chegada em casa.

Desafortunadamente, naquele dia, haviam pegado escalas diferentes. Trabalharam juntos por cerca de duas horas apenas, Jasmine chegando de manhã à delegacia e Átila começando o trabalho pouco depois de uma hora da tarde. Saíra às vinte e uma horas, e aproveitara para comer alguma coisa na barraquinha de comida hallal - comida preparada de acordo com as leis alimentares islâmicas, que proibiam o consumo de carne de porco, de sangue, além de outras coisas - pertencente a Nasif, filho de um major reformado do Exército do Reino do Marrocos. O pequeno empreendimento, localizado dentro do Parque Baisley Pond, prosperava bastante, e Átila, cuja expansividade social era um de seus traços mais característicos, já havia se tornado amigo de Nasif. Acabou perdendo-se em conversas sobre basquete, a eterna crise no Oriente Médio e a gestão homicida promovida pelo presidente norte-americano. Era ponto comum entre os dois imigrantes que o próximo presidente deveria ser democrata, e torciam para que Barak Obama fosse eleito.

Sua mente deixou de divagar quando sentiu a água parando de cair sobre seu corpo e o de sua namorada. Ela havia fechado o registro do chuveiro. Ambos saíram do box e enxugaram-se mutuamente, e Átila não se furtava a roubar beijinhos e distribuir mordidinhas pelo corpo de Jasmine. A garota reagia àquelas carícias com arrepios, ele bem percebia. E como gostava! Saiu do banheiro primeiro do que ela, já seco. O cheiro de sândalo do quarto atingiu-o como um suave e agradável tapa de luva de pelica. A música que permeava o ambiente, esgueirando-se por todos os cantos do quarto antes de chegar aos ouvidos de Átila, era All Souls Night, da cantora Loreena McKennitt, cujo disco que o brasileiro pusera para tocar ainda estava rodando no aparelho de som.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte sete(by Jô)

Jasmine olhou por sobre o ombro para Átila, aproveitando que já abrira a geladeira para organizar uma coisa ou outra lá dentro. Fez um gesto afirmativo quando ele disse que já havia comido.

- Ótimo... - respondeu, ainda abaixada - porque eu não tinha idéia do que fazer hoje... Precisamos fazer compras e... -interrompeu-se, ficando de pé quando sentiu o leve tapa em sua nádega.

Encostou-se à porta da geladeira, tonta de sono.

- Tem razão... estou mais do que cansada, estou exausta. Mas acho que ainda consigo ficar acordada por tempo o bastante para um banho... - aproximou-se do companheiro e beijou-o rapidamente nos lábios antes de continuar falando - Vá indo, sim? Ainda vou acabar uma coisinha ou outra aqui...

Esperou que Átila fosse para o quarto antes de continuar organizando a cozinha. Lavou o copo que estava na pia, ajeitou o armário e checou se o gás estava desligado antes de se encostar por algum tempo ao balcão, sem muito ânimo de se mover. Ficaria ali por cerca de um minuto, o olhar meio vago e distante. Ao despertar do devaneio, foi até o quarto.

Aspirou com prazer o leve perfume de sândalo, enquanto tirava as roupas. Os pijamas foram colocados dobradinhos sobre a cama, visto que estavam limpos. Não estava usando soutien, peça que detestava, e só vestia quando ia sair. A calcinha branca foi dobrada e levada para o banheiro, onde foi devidamente colocada dentro do cesto de roupas.

Ficou algum tempo em pé perto do mesmo, apenas observando Átila, mas logo se juntava a ele sob o chuveiro. Enquanto se molhava, acariciava gentilmente a tatuagem dele, passando depois a observar as cicatrizes que podia ver. Desistiu de perguntar, visto que sabia que de qualquer modo ele não responderia. Preferiu apenas abraçá-lo, oferecendo os lábios finos e rosados.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte seis(by Felipe)

- A barraquinha do Nasif estava aberta ainda. Comi arroz marroquino e bebi uma Pepsi. Estou bem, fique tranqüila.

Átila flertava com a cultura islâmica. Achava tudo muito bonito, muito onírico. Quando estava na rua e queria comer algo rápido, não apelava às carrocinhas de cachorro-quente que pululavam por toda Nova York, mas à barraquinha de Nasif, um imigrante marroquino que fazia comida hallal. Não resistiu ao ver a posição na qual sua namorada ficou, e estalou um tapinha maroto em sua nádega direita. Riu com suavidade quando o fez.

- Você está cansada, meu amor. Vou tomar um banho. Pode ir esquentando a cama, se quiser. Ou pode vir tomar um banho quentinho comigo para dormirmos juntos.

Átila morava há pouco tempo com a garota, desde setembro. O pouco tempo de convivência foi suficiente para que o homem se revelasse em muitos aspectos. A aparência agressiva escondia um espírito que sabia se sensibilizar, ainda que fosse bastante difícil que chegasse a esse ponto. Era equilibrado e fechado, mas capaz de um carinho tremendo e de gestos românticos que fugiam do clichê. Sabia reconhecer o valor de uma amizade, mas demorava a confiar realmente em uma pessoa. Algo que não havia mudado em sua personalidade era o mistério que fazia sobre sua pessoa: não gostava de falar de sua família ou dos anos que precederam sua entrada na polícia.

O homem era uma imensa salada cultural. Eis outra coisa bastante interessante a seu respeito: era bastante eclético. Se as pessoas que o vissem se deixassem levar pelo estereótipo, decerto pensariam que ele se tratava de um bronco, um homem de hábitos toscos, de modos rudes e rústicos, orgulhoso de sua ignorância e seu anacronismo intelectual. Sabia de tudo um pouco, de mecânica de carros à composição étnica dos povos nômades do Saara. Amava os livros mais do que qualquer outra manifestação de arte, fosse a pintura, a música ou o teatro.

Saiu da cozinha em passos lentos, voltando ao quarto. Desabotoou a calça e tirou os suspensórios dos ombros suados, despindo-se rapidamente da calça. A cueca preta, bem cavada, não demorou a também ser retirada do corpo. Desencaixou os suspensórios vermelhos da calça jeans e enrolou-os. Colocou logo a calça e a cueca dentro do cesto de roupas sujas, e voltou para o quarto uma vez mais. Ao lado da janela da varanda, em uma escrivaninha onde figuravam os notebooks do casal, havia um aparelhinho de som. Ligou seu notebook, que era conjugado ao aparelho de som, e, quando inicializou-se, colocou algumas músicas de Loreena McKennitt, uma intérprete de New Age que mesclava música celta e árabe em suas composições. Em seguida, acendeu um incenso de sândalo, colocando-o em um suporte horizontal de madeira.

Assassinatos natalinos - parte cinco(by Jô)

Jasmine ficou pensativa após as palavras de Átila. Sabia que ele tinha razão. Com alguns contatos no Bureau, o caso em que estavam trabalhando poderia ser facilitado. Olhando por esse ângulo, a ruiva podia até se animar em relação ao jantar de domingo. Ao contrário de Átila, não era muito fã de grandes reuniões sociais. Comparecia basicamente por obrigação. A única reunião social a que comparecia com gosto era o jantar anual da família Fitzpatrick, realizado todo dia primeiro de fevereiro, aniversário de casamento de seus pais. Somente sua família já bastava para encher a casa de seus pais. Jas suspirou, sentindo uma súbita saudade de casa. Precisava ligar para a mãe, conversar um pouco...

Seus pensamentos foram interrompidos quando foi puxada pela cintura. Correspondeu ao beijo de Átila com um selinho, a mente meio distante. Quando ele a abraçou pela cintura, a jovem se aproximou mais, os seios encostados ao peito dele.

- Eu sei, eu sei... Precisamos mesmo disso. Temos que... - suspirou, sentindo o cansaço voltar, e encostou a cabeça ao ombro dele, com um longo bocejo - Devemos ir, sim. - Deu um beijo carinhoso nos lábios do homem, passando-lhe os braços pelo pescoço, depois o soltou e foi até a geladeira, procurando o que havia lá, abaixada de costas para Átila. - Está com fome? Se estiver posso providenciar alguma coisa pra você...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte quatro(by Felipe)

- Não precisamos fazer nada, meu anjo. Mas seria bom conhecer gente do FBI e transformá-la em nosso contato.

A voz atravessou os lábios do homem com um acentuado sotaque. Mesmo falando um inglês impecável, era praticamente impossível evitar que o jeito marcadamente latino de falar desse o ar de sua graça na voz grave do homem. O beijo suave de Jasmine foi suficiente para que os poucos pêlos de seus antebraços, bem como os de sua nuca, se eriçassem. Havia notado que ela acordara quando saiu do quarto na direção da cozinha. Como diria sua mãe, tinha "ouvido de tuberculoso".

O jantar que aconteceria no domingo era oriundo de uma articulação que Átila começou. Havia conversado com a delegada-inspetora do distrito policial, uma mulher de olhos negros e pele cor de chocolate chamada Johnson, e promoveriam um jantar onde alguns agentes do FBI e do DEA seriam convidados. Átila conhecia um colombiano que trabalhava neste departamento, mas não conhecia nenhum federal. Sabia como era importante conhecer gente. Átila era um entusiasta das chamadas networks, as redes de trabalho.

Virou-se para ela, tendo na mão direita um copo d'água. Recostou-se ao balcão de mármore da pequena cozinha, que tomava todo o lado esquerdo do recinto juntamente com a pia e, além, o fogão. O filtro de água era conjugado à torneira da pia da cozinha, filtrando a água na hora em que era acionado. Puxou a namorada para si pela cintura, estalando um beijo suave e breve em seus lábios antes de beber toda a água num só fôlego. Colocou o copo de acrílico dentro da pia, abraçando-a pela cintura com as duas mãos.

- Você sabe como os putos do Bureau são frescos. Sempre vêm com aquela história furada de jurisdição, de competência e o caralho. Conhecer gente de lá de dentro pode ser importante. Até mesmo nessa investigação na qual estamos trabalhando.

Ao contrário de Jasmine, o caso não o afetava demais. Claro que ficara revoltado ao saber do assassinato das crianças, mas já havia visto coisas piores em sua vida, especialmente quando era mais novo. Talvez fossem as pequenas tragédias, suas e daqueles que o cercaram em sua vida no Brasil, que o fizeram amadurecer tão cedo – ou tornar-se relativamente frio em idade precoce. Já havia presenciado assassinatos, estupros e outros tipos de violência física – as poucas marcas que carregava no corpo pareciam, inclusive, ser oriundas de sessões de tortura.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte três(by Jô)

Jasmine, depois de ouvir vagamente o ruído das chaves na porta, havia se virado no tapete e dormido mais um pouco. Levaria apenas alguns minutos, no entanto, até que a ruiva se sentasse sobre os calcanhares no tapete. Ouviu algum ruído vindo do quarto, indicando que o companheiro estava lá. Com um suspiro desanimado, começou a catar as fotos espalhadas. Organizou tudo numa pilha e guardou papéis e fotos na pasta, ouvindo com atenção os ruídos que vinham do quarto. Depois de arrumar tudo, sentou-se com as pernas cruzadas à moda índia, sem a menor vontade de se levantar.

Aquele caso estava sendo bastante duro para Jasmine. Assassinatos de qualquer tipo já a incomodavam profundamente. Era o tipo de coisa que, racionalmente, era obrigada a entender. Como psicóloga, sabia dos motivos que levavam as pessoas a matar. Sabia que nem todo assassino podia ser considerado totalmente culpado por seus atos. Sabia que alguns matavam sob o efeito de drogas, ou por manifestações paranóicas relacionadas com algum tipo de distúrbio mental. Isso racionalmente. Mais difícil era explicar isso para o seu lado emocional. O assassinato de crianças, principalmente, mexia com seus instintos mais primitivos. O instinto de proteção - várias daquelas crianças eram da mesma idade de alguns dos seus sobrinhos - e o instinto maternal que, segundo sua experiência, toda mulher saudável possuía.

Sacudiu a cabeça. Precisava parar com esses devaneios quando tinha mais o que fazer. Levantou-se agilmente, mantendo a pasta em uma das mãos. Observou a passagem de Átila até a cozinha antes de ir deixar a pasta na escrivaninha do quarto. Olhou ainda uma vez as fotos, antes de apanhar o casaco dele, verificar que estava limpo e colocar na parte do guarda-roupa que reservavam para os casacos. Passou em revista o resto do quarto, chutando os coturnos para baixo da cama, e seguiu para a cozinha. Lá, olhou o calendário que ficava em uma parede, checando os compromissos anotados. Deixou escapar um gemido de desânimo ao ver o jantar da delegacia marcado para o domingo, dia 7.

Afastou-se do calendário e se aproximou do companheiro, abraçando-o por trás. Ficando nas pontas dos pés, apoiou o queixo ao ombro dele, com um longo suspiro.

- Precisamos mesmo ir ao jantar de domingo...? - sussurrou no ouvido dele, aproveitando a posição para dar um beijo leve pouco abaixo da orelha do homem.

Assassinatos natalinos - parte dois(by Felipe)

Mesmo grande, Átila era bastante silencioso. Chamava a atenção das pessoas normalmente: era bastante moreno, tinha os olhos amendoados e sua compleição física era taurina, robusta e definida como a de um halterofilista. Não era exageradamente grande, mantinha a proporcionalidade daqueles que eram fortes por mérito próprio, e não porque valeu-se de substâncias escusas. Abriu a porta lentamente, olhando para dentro do apartamento. Os olhos castanhos refulgiram sob o boné preto que usava naquele instante quando viu a namorada deitada em meio às fotos. Passou pela porta e trancou-a atrás de si.

Tirou o boné da cabeça, revelando o couro cabeludo raspado. Não gostava de ter cabelo. Raspava a cabeça desde os dezesseis anos. Abriu o casaco de nylon grafite que usava, revelando uma camiseta regata branca, ornada de frescas gotas de suor aqui e ali, e um coldre de couro marrom. As calças jeans eram presas ao corpo não por cinto, mas por um par de suspensórios vermelhos, que se destacavam sobre a camiseta branca. Levou a mão direita ao lado esquerdo do corpo, sob a axila, onde o coldre mantinha a arma que usava em serviço. Tirou a pistola, destravou, desmuniciou e tornou a travar a arma, colocando-a ao lado da arma de Jasmine. Enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans, tirando de lá o pequeno molho com as chaves do carro e de casa, alguns cents e um pacotinho de goma de mascar. Pôs tudo isso junto de sua arma. Lentamente, fazendo o máximo de silêncio que seu par de pesados coturnos permitiam, foi caminhando na direção do quarto. Estava louco por um banho. Observava a companheira de soslaio enquanto caminhava.

A primeira coisa que chamou a atenção do homem para aquela garota foi seu nome. Jasmim era o nome da filha que Átila deixara no Brasil - não a via desde que ela tinha três anos de idade. Claro, o fato de ser ruiva e ter olhos verdes também contribuiu. Começaram a trabalhar juntos, e em pouco tempo surgiu entre os dois uma amizade inquestionavelmente arrebatadora. Em pouco tempo, as coisas evoluíram. Conhecia-a há dois anos, e estavam morando juntos há três meses. A diferença de idade chamava um pouco de atenção - Átila estava com quarenta e dois anos recém-completos -, mas ajudava na administração do relacionamento. Choque cultural? Praticamente inexistente. Ainda que fosse brasileiro, e disso se orgulhasse ao ponto de tatuar a bandeira da terra pátria no ombro direito, vivia há muitos anos em Nova York. Raros eram os policiais honestos no Brasil, sabia disso por ter feito parte da Polícia Civil do Distrito Federal, e, lá nos Estados Unidos, essa quantidade parecia ser ligeiramente maior. Ao menos tivera a sorte de ter caído em uma delegacia pequena, onde o conflito de egos e a fogueira de vaidades não costumavam interferir tanto nos trabalhos da equipe.

Tinha um apartamento naquele mesmo prédio, onde a maioria dos policiais da delegacia onde trabalhava também moravam. Era bem mais fácil quando queriam fazer confraternizações, e Átila sempre adorava organizá-las. A área de lazer do condomínio própria para esse tipo de ocasião ficava no terraço, e era bastante aconchegante. O apartamento fora alugado para um casal mexicano quando ele resolveu ir morar com Jasmine. A renda extra era sempre bem-vinda, mesmo que não passasse nenhum tipo de aperto financeiro naquela cidade. O trabalho era bem remunerado, disso não podia reclamar.

Sentou-se na cama que dividia com ela, puxou para cima as barras das calças e começou a desamarrar os coturnos, cujos canos altos chegavam à metade das panturrilhas do brasileiro. Tirou os calçados pesados dos pés, retirando as meias em seguida e as colocando sobre as botas. Tirou o casaco de nylon e jogou na direção da cadeira da escrivaninha, largando-o por lá por enquanto. Tirou a camiseta regata e pegou novamente as meias, colocando essas peças no cesto de roupas sujas que havia dentro do banheiro. Descalço, usando somente as calças, os suspensórios colando-se aos ombros levemente suados, saiu do quarto e foi até a cozinha. Será que Jasmine já teria acordado?

Assassinatos natalinos - parte um(by Jô)

Queens, NY

Local: Um pequeno prédio residencial a dois quarteirões da delegacia
Data: 05 de janeiro de 2007
Hora: 1:30 da manhã

No apartamento 301 daquele prédio, habitado em grande parte por policiais, ainda havia luzes acesas na sala. Era um cômodo espaçoso, separado da cozinha por um balcão e do único quarto - uma suíte de casal - por uma porta, que estava entreaberta no momento.

Voltando a atenção para a sala, podia-se ver uma mesinha ao lado da porta, onde repousavam dois molhos de chaves e um coldre com um cabo prateado à mostra. Do lado direito, perto do balcão da cozinha, ficava a mesa de madeira nua que era usada para as refeições. Pendurado em uma das cadeiras, um casaco pesado indicava que pelo menos um dos habitantes do apartamento era um homem. Do outro lado da sala, uma estante antiga abrigava a TV e vários livros. Junto à porta do quarto, havia um sofá com dois lugares e um tapete claro.

Espalhados em desordem no tapete macio, estavam papéis e retratos de crianças... e uma jovem mulher. Tinha a pele clara e rosada, os cabelos ruivos, longos e ondulados e, se os olhos estivessem abertos, a cor vista seria um verde vivo. Mas não estavam. Estava deitada de lado, profundamente adormecida, sem ter sequer tido o trabalho de tirar os óculos de leitura.

Chamava-se Jasmine Fitzpatrick e era a caçula de cinco filhos de uma família irlandesa. Mudara-se para Nova York bem pequena, e sempre vivera no Queens, de onde só saíra para cursar a faculdade de Psicologia. Voltando para casa com o diploma, acabou por ingressar na Polícia depois de ver a situação em que sua vizinhança se encontrava. Aprovada nos exames com excelentes notas, começou o trabalho nas ruas, mas seu diploma em Psicologia logo lhe conseguiu um trabalho interno, criando perfis dos criminosos que tinham repetidas passagens pela delegacia.

No Distrito, além do emprego, que não trocaria por nenhum outro, conquistara também bons amigos e um namorado que, recentemente, se transformara em seu companheiro no apartamento onde se encontrava.

A ruiva, que vestia pijamas de flanela verde-escura, se mexeu um pouco ao ouvir o ruído de chaves na porta, mas não chegou a despertar. Virou-se de lado e continuou a dormir.

Assassinatos natalinos - introdução

Queens, NY

Aquela pequena delegacia em uma rua estreita e pouco movimentada da cidade de Nova York andava em polvorosa.

Há poucos dias, na manhã de Natal, dezessete crianças haviam sido encontradas mortas por estrangulamento nas redondezas da delegacia. A questão do local em que os crimes haviam ocorrido acabou por jogar o caso nas mãos dos policiais do 27º Distrito. Arthur Chester, o inspetor, destacou imediatamente toda a sua equipe para o caso. Os policiais que não estavam correntemente envolvidos em nenhuma investigação receberam instruções de ficar o tempo inteiro à disposição. O relatório do legista dizia que o crime provavelmente fora cometido por um homem. Uma cópia do relatório, junto com as fotos das pequenas vítimas e a lista de suspeitos compilada até o momento, foi entregue a cada um dos policiais que trabalhavam no caso, e a caçada começou.