Deixou aquelas digressões de lado quando Jasmine, sob o chuveiro do banheiro assim como ele, abraçou-o. O corpo da garota parecia frágil, facilmente quebrável, quando estava nos braços do grandalhão musculoso. A água escorria por entre os corpos de forma lânguida, e foi com aquela mesma languidez que o brasileiro beijou os lábios da ruiva. Suas mãos percorreram as costas da garota, e sentia que as dela também passeavam por seu corpo. O beijo, entretanto, foi breve, ainda que carregasse um desejo inconfesso de que durasse por toda uma noite.
Átila deu banho em Jasmine. Suas mãos grandes ensaboaram o corpo da garota sem ajuda de bucha, espalhando o sabonete líquido por todos os volteios e recantos do corpo dela antes que a enxaguasse. Depois, deixou que retribuísse a ele a gentileza. A delicadeza dos gestos da policial eram como confissões de um carinho inconteste, de um sentimento que, doce e amplo, crescia a cada dia com os laços do cotidiano. E foi durante esses momentos de ternura que permitiu à sua mente alguns instantes de divagação e lembrança das horas que precederam sua chegada em casa.
Desafortunadamente, naquele dia, haviam pegado escalas diferentes. Trabalharam juntos por cerca de duas horas apenas, Jasmine chegando de manhã à delegacia e Átila começando o trabalho pouco depois de uma hora da tarde. Saíra às vinte e uma horas, e aproveitara para comer alguma coisa na barraquinha de comida hallal - comida preparada de acordo com as leis alimentares islâmicas, que proibiam o consumo de carne de porco, de sangue, além de outras coisas - pertencente a Nasif, filho de um major reformado do Exército do Reino do Marrocos. O pequeno empreendimento, localizado dentro do Parque Baisley Pond, prosperava bastante, e Átila, cuja expansividade social era um de seus traços mais característicos, já havia se tornado amigo de Nasif. Acabou perdendo-se em conversas sobre basquete, a eterna crise no Oriente Médio e a gestão homicida promovida pelo presidente norte-americano. Era ponto comum entre os dois imigrantes que o próximo presidente deveria ser democrata, e torciam para que Barak Obama fosse eleito.
Sua mente deixou de divagar quando sentiu a água parando de cair sobre seu corpo e o de sua namorada. Ela havia fechado o registro do chuveiro. Ambos saíram do box e enxugaram-se mutuamente, e Átila não se furtava a roubar beijinhos e distribuir mordidinhas pelo corpo de Jasmine. A garota reagia àquelas carícias com arrepios, ele bem percebia. E como gostava! Saiu do banheiro primeiro do que ela, já seco. O cheiro de sândalo do quarto atingiu-o como um suave e agradável tapa de luva de pelica. A música que permeava o ambiente, esgueirando-se por todos os cantos do quarto antes de chegar aos ouvidos de Átila, era All Souls Night, da cantora Loreena McKennitt, cujo disco que o brasileiro pusera para tocar ainda estava rodando no aparelho de som.