quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Assassinatos natalinos - parte seis(by Felipe)

- A barraquinha do Nasif estava aberta ainda. Comi arroz marroquino e bebi uma Pepsi. Estou bem, fique tranqüila.

Átila flertava com a cultura islâmica. Achava tudo muito bonito, muito onírico. Quando estava na rua e queria comer algo rápido, não apelava às carrocinhas de cachorro-quente que pululavam por toda Nova York, mas à barraquinha de Nasif, um imigrante marroquino que fazia comida hallal. Não resistiu ao ver a posição na qual sua namorada ficou, e estalou um tapinha maroto em sua nádega direita. Riu com suavidade quando o fez.

- Você está cansada, meu amor. Vou tomar um banho. Pode ir esquentando a cama, se quiser. Ou pode vir tomar um banho quentinho comigo para dormirmos juntos.

Átila morava há pouco tempo com a garota, desde setembro. O pouco tempo de convivência foi suficiente para que o homem se revelasse em muitos aspectos. A aparência agressiva escondia um espírito que sabia se sensibilizar, ainda que fosse bastante difícil que chegasse a esse ponto. Era equilibrado e fechado, mas capaz de um carinho tremendo e de gestos românticos que fugiam do clichê. Sabia reconhecer o valor de uma amizade, mas demorava a confiar realmente em uma pessoa. Algo que não havia mudado em sua personalidade era o mistério que fazia sobre sua pessoa: não gostava de falar de sua família ou dos anos que precederam sua entrada na polícia.

O homem era uma imensa salada cultural. Eis outra coisa bastante interessante a seu respeito: era bastante eclético. Se as pessoas que o vissem se deixassem levar pelo estereótipo, decerto pensariam que ele se tratava de um bronco, um homem de hábitos toscos, de modos rudes e rústicos, orgulhoso de sua ignorância e seu anacronismo intelectual. Sabia de tudo um pouco, de mecânica de carros à composição étnica dos povos nômades do Saara. Amava os livros mais do que qualquer outra manifestação de arte, fosse a pintura, a música ou o teatro.

Saiu da cozinha em passos lentos, voltando ao quarto. Desabotoou a calça e tirou os suspensórios dos ombros suados, despindo-se rapidamente da calça. A cueca preta, bem cavada, não demorou a também ser retirada do corpo. Desencaixou os suspensórios vermelhos da calça jeans e enrolou-os. Colocou logo a calça e a cueca dentro do cesto de roupas sujas, e voltou para o quarto uma vez mais. Ao lado da janela da varanda, em uma escrivaninha onde figuravam os notebooks do casal, havia um aparelhinho de som. Ligou seu notebook, que era conjugado ao aparelho de som, e, quando inicializou-se, colocou algumas músicas de Loreena McKennitt, uma intérprete de New Age que mesclava música celta e árabe em suas composições. Em seguida, acendeu um incenso de sândalo, colocando-o em um suporte horizontal de madeira.

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